sábado, 2 de maio de 2020
Poema da Despedida de Mia Couto
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Esta gente... por Sophia!
ESTA GENTE
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Geografia"
domingo, 8 de dezembro de 2019
Taberna do Diabo
O Cancioneiro do Niassa é uma colectânea de fados e canções centrados na vida dos militares portugueses colocados na região do Niassa, Moçambique durante a Guerra Colonial nos finais da década de 60. Constituem maioritariamente adaptações das letras de melodias em voga na altura e retratam uma visão humorística e sarcástica da própria guerra. As letras foram elaboradas essencialmente pelos próprios militares tendo sido efectuadas algumas gravações privadas que foram circulando rápida e clandestinamente entre os militares de outras zonas da guerra. A Taberna do Diabo é uma delas!
Obrigada, Carlos Ferro!
Um dia fui dar com Deus
na taberna do Diabo
Entre cristãos e ateus
fizeram de mim soldado
E eu sem querer fui embarcado
Levei armas e um galão
P'ró outro lado do mar
Quis levar o coração
Não mo deixaram levar
E eu sem querer ia matar
E eu sem querer ia matar
Deram-me uma cruz de guerra
quando matei meu irmão
e a gente da minha terra
promoveu-me a capitão
E eu sem querer fiquei papão
E eu sem querer fiquei papão
Todos me chamam herói
Ninguém me chama Manel
Quem quer uma cruz de guerra
Que eu já não vou p'ró quartel
Que eu já não vou p'ró quartel
Que eu já não vou p'ró quartel
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
Eis-me... por Sophia!
Uma preciosidade!
Eis-me
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és, de todos os ausentes, o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro são planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite, escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és, de todos os ausentes, o ausente.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
sábado, 19 de outubro de 2019
Jorge de Sena e Uma pequenina luz!
No Quartel da Artes em Oliveira do Bairro descobri "Uma pequenina luz"pelas vozes de Lúcia Moniz e Pedro Lamares!
“Uma Pequenina Luz”
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não veem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância.
Aqui no meio de nós.
Brilha
Jorge de Sena
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
No rancho fundo de... António Zambujo e Miguel Araújo
A minha primeira memória desta canção sertaneja, cantada por Chitãozinho e Xororó, está ligada à novela brasileira "Tieta".
Ontem, num concerto do Miguel Araújo, na praia da Vagueira, falou-se desta versão. Aqui vai ela! Obrigada, Sérgio Teles!!
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade...
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos d'água...
Pobre moreno
Que de noite no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo um cigarro
Por companheiro...
Sem um aceno
Ele pega na viola
E a lua por esmola
Vem p'ro quintal
Desse moreno...
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia...
Os arvoredos
Já não contam
Mais segredos
E a última palmeira
Já morreu na cordilheira...
Os passarinhos
Internaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza
Enche de trevas a natureza...
Tudo porquê?
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
P'ra uma casa de sapê...
Se Deus soubesse
Da tristeza lá serra
Mandaria lá p'ra cima
Todo o amor que há na terra...
Porque o moreno
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade...
Ele que era
O cantor da primavera
E que fez do rancho fundo
O céu melhor
Que há no mundo...
Se uma flor desabrocha
E o sol queima
A montanha vai gelando
Lembra o cheiro
Da morena...
Lamartine Babo - Ary Barroso
Ontem, num concerto do Miguel Araújo, na praia da Vagueira, falou-se desta versão. Aqui vai ela! Obrigada, Sérgio Teles!!
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade...
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos d'água...
Pobre moreno
Que de noite no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo um cigarro
Por companheiro...
Sem um aceno
Ele pega na viola
E a lua por esmola
Vem p'ro quintal
Desse moreno...
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia...
Os arvoredos
Já não contam
Mais segredos
E a última palmeira
Já morreu na cordilheira...
Os passarinhos
Internaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza
Enche de trevas a natureza...
Tudo porquê?
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
P'ra uma casa de sapê...
Se Deus soubesse
Da tristeza lá serra
Mandaria lá p'ra cima
Todo o amor que há na terra...
Porque o moreno
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade...
Ele que era
O cantor da primavera
E que fez do rancho fundo
O céu melhor
Que há no mundo...
Se uma flor desabrocha
E o sol queima
A montanha vai gelando
Lembra o cheiro
Da morena...
Lamartine Babo - Ary Barroso
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Miguel Torga em Retrato
Retrato
O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura,
há quanto faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.
Miguel Torga Diário VI Coimbra, 12 de Março de 1952
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