Cantando uma canção tradicional da Beira Baixa, uma voz límpida
Senhora, Senhora do Almortão
Senhora do Almortão
Ó minha linda raiana
Virai costas, virai costas a Castela
virai costas a Castela
Não queiras ser castelhana.
Senhora, Senhora do Almortão
Senhora do Almortão
A vossa capela cheira
Cheira a cravos
Cheira a cravos, cheira a rosas
Cheira a cravos, cheira a rosas
Cheira a flor de laranjeira.
Senhora, Senhora do Almortão
Senhora do Almortão
Eu pró ano não prometo
Que me morreu
que me morreu um amor
Que me morreu um amor,
ando vestida de preto.
Senhora do Almortão,
Ó minha linda raiana
Virai costas a Castela
Não queiras ser castelhana.
Senhora do Almortão,
a vossa capela cheira,
cheira a cravos, cheira a rosas
cheira a flor de laranjeira.
Senhora do Almortão,
eu pró ano não prometo
que me morreu um amor,
ando vestida de preto.
Olha a laranjinha que caiu, caiu
lá debaixo de água, nunca mais se viu... (...)
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Ary dos Santos por Susana Félix
Numa versão fantástica...
De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei.
Sei dos teus olhos acesos na noite
- sinais de bem despertar –
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar.
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer.
Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei
Dei do meu corpo um chicote de força.
Razei com meus olhos com água.
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de mágoa
Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas
E nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não logrei
Mas quis.
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer
Então
Nem choros
nem medos
nem uivos
nem gritos
nem pedras
nem facas
nem fomes
nem secas
nem feras
nem ferros
nem farpas
nem farsas
nem forcas
nem cardos
nem dardos
nem guerras
De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei.
Sei dos teus olhos acesos na noite
- sinais de bem despertar –
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar.
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer.
Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei
Dei do meu corpo um chicote de força.
Razei com meus olhos com água.
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de mágoa
Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas
E nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não logrei
Mas quis.
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer
Então
Nem choros
nem medos
nem uivos
nem gritos
nem pedras
nem facas
nem fomes
nem secas
nem feras
nem ferros
nem farpas
nem farsas
nem forcas
nem cardos
nem dardos
nem guerras
Agustina Bessa-Luís novamente...
Na primeira pessoa e descrita por familiares e amigos. Um documentário onde se reconhecem pormenores, personagens, ambientes retratados nos seus livros, em especial n'A Sibila.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Agustina Bessa-Luís e a mulher...
Há uns dias voltei a ver o filme Vale Abraão e percebi que a força do filme está sobretudo na riqueza das personagens criadas pela escritora. Tive saudades de um livro magnífico, que li três vezes seguidas, e que resolvi, agora mesmo, ler novamente!
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Isabel Silvestre e Rui Reininho
A perfeição de duas vozes que não se imaginariam juntas!
Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe renho
Novos ricos são má sorte
É a pronúncia do Norte
Os tontos chamam-lhe torpe
Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússula não sei se existe
E o plano talvez aborte
Nem guerra, bairro ou corte
É a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar
Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da Geada as pérolas as fontes secaram
Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte
E as teias que vidram nas janelas
esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
E É a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar
Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe renho
Novos ricos são má sorte
É a pronúncia do Norte
Os tontos chamam-lhe torpe
Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússula não sei se existe
E o plano talvez aborte
Nem guerra, bairro ou corte
É a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar
Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da Geada as pérolas as fontes secaram
Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte
E as teias que vidram nas janelas
esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
E É a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar
terça-feira, 23 de julho de 2013
David Mourão-Ferreira e o fluir da palavra...
A Secreta Viagem
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!
David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"
sexta-feira, 19 de julho de 2013
A Caldeirada por Amália Rodrigues
Um fado inesperado!
Em vésperas de caldeirada, o outro dia,
Já que o peixe estava todo reunido,
Teve o guraz a ideia de falar à assembleia,
No que foi muito aplaudido
Camaradas: principia a ordem do dia!
É tudo aquilo que for poluição,
Porque o homem, que é um tipo cabeçudo,
Resolveu destruir tudo, pois então!
E com tal habilidade e intensidade
Nas fulguranças do génio,
Que transforma a água pura numa espécie de mistura,
Que nem tem oxigénio
E diz ele que é o rei da criação!
As coisas que a gente lhe ouve e tem que ser!
Mas a minha opinião, diz o pargo capatão,
Gostava de lha dizer!
Pois se a gente até se afoga!
Grita a boga, por o homem ter estragado o ambiente!
Dar cabo da criação, esse pimpão,
Isso não é decente!
Diz do seu lugar: tá mal!, o carapau,
Porque, por estes caminhos,
Certo vamos mais ou menos ficando todos pequenos,
Assim como "jaquinzinhos"
Diz então o camarão, a certa altura:
Mas o que é que nós ganhamos por falar?
Ó seu grande camarão, pergunta então o cação,
Você nem quer refilar?
Se quer morrer, diz a lula toda fula,
Com a mania da cerveja e dos cafézes,
Morra lá à sua vontade, que assim seja!,
Para agradar aos fregueses!
Diz nessa altura a sardinha prá taínha:
Sabe a última do dia? A pescadinha, já louca,
Meteu o rabo na boca,
O que é uma porcaria!
Peço a palavra! gritou o caranguejo,
Eu, que tenho por mania observar,
Tenho estudado a questão e vejo a poluição
Dia e noite a aumentar
Cai do céu a água pura
E a criatura pensa que aquilo que é dele é monopólio.
Vai a gente beber dela e a goela
Fica cheia de petróleo!
A terra e o mar são para o cidadão
Assim como o seu palácio.
Se um dia lhe deito o dente
Parto tudo de repente ou eu não seja crustáceo!
É um tipo irresponsável, grita o sável,
O homem que tal aquele!
Vai a proposta prá mesa: ou respeita a natureza,
Ou vamos todos a ele!
Em vésperas de caldeirada, o outro dia,
Já que o peixe estava todo reunido,
Teve o guraz a ideia de falar à assembleia,
No que foi muito aplaudido
Camaradas: principia a ordem do dia!
É tudo aquilo que for poluição,
Porque o homem, que é um tipo cabeçudo,
Resolveu destruir tudo, pois então!
E com tal habilidade e intensidade
Nas fulguranças do génio,
Que transforma a água pura numa espécie de mistura,
Que nem tem oxigénio
E diz ele que é o rei da criação!
As coisas que a gente lhe ouve e tem que ser!
Mas a minha opinião, diz o pargo capatão,
Gostava de lha dizer!
Pois se a gente até se afoga!
Grita a boga, por o homem ter estragado o ambiente!
Dar cabo da criação, esse pimpão,
Isso não é decente!
Diz do seu lugar: tá mal!, o carapau,
Porque, por estes caminhos,
Certo vamos mais ou menos ficando todos pequenos,
Assim como "jaquinzinhos"
Diz então o camarão, a certa altura:
Mas o que é que nós ganhamos por falar?
Ó seu grande camarão, pergunta então o cação,
Você nem quer refilar?
Se quer morrer, diz a lula toda fula,
Com a mania da cerveja e dos cafézes,
Morra lá à sua vontade, que assim seja!,
Para agradar aos fregueses!
Diz nessa altura a sardinha prá taínha:
Sabe a última do dia? A pescadinha, já louca,
Meteu o rabo na boca,
O que é uma porcaria!
Peço a palavra! gritou o caranguejo,
Eu, que tenho por mania observar,
Tenho estudado a questão e vejo a poluição
Dia e noite a aumentar
Cai do céu a água pura
E a criatura pensa que aquilo que é dele é monopólio.
Vai a gente beber dela e a goela
Fica cheia de petróleo!
A terra e o mar são para o cidadão
Assim como o seu palácio.
Se um dia lhe deito o dente
Parto tudo de repente ou eu não seja crustáceo!
É um tipo irresponsável, grita o sável,
O homem que tal aquele!
Vai a proposta prá mesa: ou respeita a natureza,
Ou vamos todos a ele!
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