A minha primeira memória desta canção sertaneja, cantada por Chitãozinho e Xororó, está ligada à novela brasileira "Tieta".
Ontem, num concerto do Miguel Araújo, na praia da Vagueira, falou-se desta versão. Aqui vai ela! Obrigada, Sérgio Teles!!
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade...
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos d'água...
Pobre moreno
Que de noite no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo um cigarro
Por companheiro...
Sem um aceno
Ele pega na viola
E a lua por esmola
Vem p'ro quintal
Desse moreno...
No rancho fundo
Bem p'ra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia...
Os arvoredos
Já não contam
Mais segredos
E a última palmeira
Já morreu na cordilheira...
Os passarinhos
Internaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza
Enche de trevas a natureza...
Tudo porquê?
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
P'ra uma casa de sapê...
Se Deus soubesse
Da tristeza lá serra
Mandaria lá p'ra cima
Todo o amor que há na terra...
Porque o moreno
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade...
Ele que era
O cantor da primavera
E que fez do rancho fundo
O céu melhor
Que há no mundo...
Se uma flor desabrocha
E o sol queima
A montanha vai gelando
Lembra o cheiro
Da morena...
Lamartine Babo - Ary Barroso
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Miguel Torga em Retrato
Retrato
O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura,
há quanto faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.
Miguel Torga Diário VI Coimbra, 12 de Março de 1952
segunda-feira, 10 de junho de 2019
O melhor de ser português: o olhar atento e sensível sobre o outro!
Com orgulho e patriotismo, porque não? partilho aqui o texto deste colega!
Bom dia de Portugal!
Obrigada, Carlos Santos por mostrar assim o melhor lado de nós!
"Hoje na rua escutei de um estranho o aforismo de que “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”. Foi como se tornasse audíveis os pensamentos que nos últimos dias me têm perseguido e me empurraram para este confessionário de palavras atiradas para o lugar de ninguém onde quase toda a gente mora.
Lamentavelmente hoje, no meu pensamento, não há espaço para todos os professores e o imenso trabalho e dedicação que investem no ensino. Na minha cabeça está alojada uma enorme falange de professores que não são devidamente valorizados e que desempenham um papel essencial para o ensino e para o país – os professores contratados.
Mais tempo na estrada trouxe-me muitos dissabores, mas também revelou a minha miopia. Durante todo este ano colegas contratados partilharam boleias comigo e, embora sem suspeitarem, partilharam muito mais.
Enquanto o cavalo de ferro ofegante desembestava pelo alcatrão, uma vez mais, falava-se sobre a incerteza do dia seguinte, da eventualidade do regresso ao serviço do colega que substituem empurrando-os de volta para o abismo.
“Leva-se um dia de cada vez e depois… logo se vê”, foi a frase mais repetida para camuflar a ansiedade, com a mesma eficácia com que se tenta esconder um elefante atrás de um poste. Diz-se isso como se uma loucura repetida várias vezes pudesse passar a ser aceite como uma sanidade aceitável.
Mas, na ausência de melhor solução, esta era a melhor maneira encontrada para encarar tanta insegurança sobre aquilo que poderá chegar depois de cada amanhecer. Vivia-se um dia de cada vez para tornar a vida suportável. E, não obstante o elefante no meio da sala, inesperadamente ainda fomos tendo a capacidade de nos rirmos das nossas próprias desgraças.
Depois, ignorando o rugido do corcel enfurecido, no seu interior urdia-se um silêncio sepulcral de inquietude do qual me quis libertar tentando compreender, em vão, a razão daquela dor encoberta.
Pensei… não bastando o azedume de tantos pedantes que conjuram sobre a preguiça e o aranzel de privilégios dos professores, por vezes aos colegas contratados ainda é exigido que engulam em seco quando fustigados pelas palavras nocivas que saem da boca de alguns dos seus pares perguntando-lhes se são professores ou contratados. Na realidade, são personagens constantemente compelidas para fora da história da qual fazem parte, tratados à margem como meros figurantes ou personagens secundárias.
Absortos na preocupação de saber se um dia teremos direito a uma reforma condigna, não reparámos que no seu mundo povoado por pequenas esperanças, eles já não acalentam ilusões sobre a eventualidade de um dia a virem a receber. Resignados, acreditam que lhes darão simbolicamente uma miséria ao fim de tantos anos inacabados e horários incompletos em que trabalharam só para somar tempo de serviço, acabando frequentemente por ter de pagar para poder trabalhar. Nada mais representam para o Estado do que um chorudo negócio.
Longe vai o dia em que, ao receberem o primeiro salário, se sentiram orgulhosos e reconhecidos pelo seu trabalho. Depressa o sabor amargo da exploração a que estavam sujeitos os tomou de assalto.
Povoando quartos e enchendo as estradas deste país, vêm e vão das escolas e depressa são esquecidos. Rotulados de inexperientes, sem eira nem beira do Minho, pelas Beiras ao Alentejo, passando pelo sul e ilhas, acumulam mais experiências do que qualquer um de nós, mas são incompreendidos e desconsiderados.
Perante a nossa agitação pelo cansaço do trabalho do final de um ano que almejávamos ver chegar ao fim, o que dizer sobre a angústia que estão a viver os professores contratados que pressentem não ver chegar o final do ano devido à “devolução” às escolas dos professores que estavam de baixa?
Onde nós vemos o melhor momento do ano com a aproximação do merecido descanso, eles veem cair sobre as suas cabeças a ameaça do regresso do pesadelo sob a forma de perda de tempo de serviço dispensando-os para o subsídio de desemprego. Um esquema maquiavélico montado pela tutela que, sem qualquer preocupação com a qualidade do ensino, para ir poupando dinheiro expulsa para fora do sistema colegas que deram tudo de si pelo país ao longo do ano.
Sem aviso prévio, certo dia, esses colegas simplesmente desaparecem, comprovando o papel descartável de quem é reduzido a um mero utensílio.
E eu que, na minha supina ignorância, permiti-me julgar que vos conhecia e sabia da vossa vida, na verdade, da vossa vida não sabia nada, nem coisa nenhuma.
Contratados há dez, vinte ou mais anos, numa vida de espera por algo que poderá nunca chegar, vão vivendo e sobrevivendo com as imensas regalias que noticia essa aberração voraz denominada «comunicação social» alimentada pela inveja de uma imensa massa acrítica cobardemente escudada atrás do anonimato da palavra «povo». Colegas que perdem tempo e dinheiro, a oportunidade de acompanhar de perto o crescimento dos seus filhos e qualidade de vida, mereciam mais respeito.
A sociedade é ingrata para com o trabalho dos professores, mas injusta e desumana para os que, de entre nós, continuam a ser contratados e atirados para o esquecimento.
Casados com a estrada, com a distância e o sentimento de separação, os professores contratados aceitam esta singular forma de vida por amor ao ofício de ensinar. Há muito que malas e alcatrão já fazem parte da bagagem pedagógica que os desliga dos seus lares, para irem vivendo como trapezistas na corda bamba.
Mas, em todo o caso, não era só isso que adensava o ar na boca sufocante da besta metálica onde nos encarceráramos com o propósito de finalmente sermos devolvidos a casa. Havia mais qualquer coisa que me escapava. Não me perguntem o quê, que até àquele momento eu ainda não tinha tido o discernimento para perceber.
As repostas estavam algures penduradas atrás de nuvens que povoavam um desabitado céu cor de chumbo onde moravam sonhos inalcançáveis para os meus olhos.
Durante mais uma de infinitas viagens sem fim à vista assolada pelo cansaço que nos agredia, observei o semblante meditabundo da colega que me devolveu um sorriso compungido usado como uma máscara para encobrir um profundo desassossego que lhe esvaziava a alma.
No meio de silêncios que devoravam quilómetros, arremessou o olhar para lá da janela onde a paisagem de nuvens escurecidas passava por ela e, então, olhando-a de soslaio consegui ver claramente o que nunca antes conseguira ver. Vi no canto dos seus olhos um brilho de tanto que ela tinha para dizer. Durante um instante que se tornou numa eternidade, escutei a sua voz calada dizer tudo sem proferir uma única palavra. Li naquele rosto tudo o que nesse inesquecível momento havia para sentir, para compreender.
E em silêncio, olhando pela vidraça da janela, ela disse-o com o olhar atirado para o mundo dos pensamentos e eu, pela primeira vez, consegui escutar:
–Todos os anos fui obrigada a abandonar amigos que criei e estimei e que nunca irei esquecer.
Beijei e abracei gente por esse país fora; gente por quem me afeiçoei e que não mais voltei a ver criando mais desertos no meu peito.
Na lembrança trago um enorme lençol de histórias de gente que toquei e se tornaram parte de mim.
Atraiçoei todas as crianças que se apegaram a mim e para as quais não mais voltei.
Abandonei repetidamente os braços da família que amo e que generosamente me abafam a dor da saudade com abraços perdoando-me o vazio que lhes deixei.
Digam-me como hei de explicar a um filho que não compreende este constante abandono acusando-me de gostar mais dos outros meninos do que dele, porque, sinceramente, eu não sei como o fazer?
Digam-me como posso ignorar o aperto no peito quando regresso tão tarde e me levanto tão cedo que os meus filhos nem me veem?
Digam-me, nessa equação infernal que rege a minha vida, onde cabe o choro de filhos que fui obrigada a deixar ficar para trás sempre que fiz a mala e me desfiz do lar, me desfiz da família, me desfiz deles, me desfiz em mil bocados?
Digam-me quantas vezes uma pessoa se pode partir e voltar a colar?
Mas o rio corre e sempre correu, mesmo quando parecia não haver mais água para o alimentar. Um rio que nasce nestes olhos de saudade, de dor e de esperança tornou-me agricultora nas terras férteis que atravessei derramando lágrimas de bem-querer que fizeram germinar todas as pequenas flores que abracei e encheram o meu jardim.
Sem ser pastora, rodeei-me de rebanhos que me seguiram até ao cimo de montes de onde tudo se podia ver.
Tornei-me nómada num mundo de lugares que me desejavam e me rejeitavam num ápice prostituindo a pureza e a inocência das verdades nas quais eu ainda acreditava.
Do reflexo desta lágrima que escorre triste pela encosta deste monte, olham-me todas as criaturas do mundo que eu pude conhecer e que agora me vieram ver do já longo livro de memórias dos sítios por onde passei.
Na boca faltam-me as palavras para dizer tudo aquilo que sinto de tanto que haveria para dizer.
Não há no mundo dinheiro que pague a saudade que se instalou aqui;
não há no mundo dinheiro que apague a dor de tanta ausência que senti;
não há no mundo dinheiro que traga de volta tudo aquilo que eu perdi;
não há no mundo ideia de tudo aquilo que fiz, os sacrifícios que aceitei, as lágrimas que nos olhos dos que amo eu derramei, só para poder abraçar a profissão que escolhi;
não há no mundo interesse pela minha vida, porque ela não cabe no circo mediático em redor do qual se juntam todos os que não me querem ver;
não há no mundo ideia, porque eles não entendem, não sabem, nem imaginam que não há dinheiro no mundo que pague tudo isto que só eu sei.
Cristalizado a olhá-la, quase desejei que aquele instante de clareza nunca acabasse. Uma eternidade que se sentou a meu lado, permitindo-me observar o seu silêncio falar muito mais do a sua boca alguma vez pudesse proferir. O tempo congelou nesse momento em que me senti um inútil ao encontrar tantas lágrimas nos olhos como falta de palavras na boca. Apetecia-me dizer-lhe que agora eu compreendia toda essa dor. Movi os lábios, mas embargou-se-me a voz e fui incapaz de emitir um único som. Aquela colega, mulher, esposa, mãe, refugiara-se algures num lugar tão seu que eu não tive coragem de ir bater à sua porta para lhe dizer que agora eu já a conseguia ver.
Enquanto o olhar furtivo dela ficara lá fora perdido no último refúgio do mundo, repleto de memórias e sonhos escondidos num céu triste que se derramava sobre nós, eu tivera o raro privilégio de lhe conseguir ler as feições da alma. Pergunto-me como foi possível que durante tanto tempo eu estivesse cego ao ponto de deixar que aquela mulher fosse invisível aos meus olhos?
“Ser invisível” é o fado que o professor contratado tão bem conhece neste meio, não só pelo desinteresse em tentarmos descobrir o que o outro ser humano sente, mas também pela nossa incapacidade de vestirmos a sua pele.
Por fim, quando o mundo se evaporou no meio das trevas, tão derrotada pelo cansaço como nós, a besta fumegante finalmente parou vomitando-nos de volta aos nossos lares. Havia de desfilar um cortejo de dias até eu reconhecer a minha incapacidade de colocar em palavras todas aquelas emoções. Suponho que isso nunca venha a ser possível.
Só consigo dizer que era impossível terminar o ano sem manifestar a minha mais profunda admiração pelo trabalho que os meus colegas de boleias e todos os professores contratados “invisíveis” prestam, cuja dívida para com eles este país jamais conseguirá saldar… porque “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”.
Numa altura em que a importância dos professores e do serviço que prestam em situações, tantas vezes tão difíceis, se resume a uma simples equação de cifrões conotada com despesa, esta frase nunca fez tanto sentido. Só é pena haver tanta cegueira à nossa volta.
A minha vida profissional sempre na estrada tem sido difícil, mas o que dizer destas vidas?…
Um grande abraço a todos vós, caros colegas contratados, e os desejos das maiores felicidades para um futuro que desejo longe dos quartos e das estradas, mas perto dos que moram no vosso peito… que a gente vai-se vendo por aí.
Até sempre!"
Carlos Santos
Bom dia de Portugal!
Obrigada, Carlos Santos por mostrar assim o melhor lado de nós!
"Hoje na rua escutei de um estranho o aforismo de que “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”. Foi como se tornasse audíveis os pensamentos que nos últimos dias me têm perseguido e me empurraram para este confessionário de palavras atiradas para o lugar de ninguém onde quase toda a gente mora.
Lamentavelmente hoje, no meu pensamento, não há espaço para todos os professores e o imenso trabalho e dedicação que investem no ensino. Na minha cabeça está alojada uma enorme falange de professores que não são devidamente valorizados e que desempenham um papel essencial para o ensino e para o país – os professores contratados.
Mais tempo na estrada trouxe-me muitos dissabores, mas também revelou a minha miopia. Durante todo este ano colegas contratados partilharam boleias comigo e, embora sem suspeitarem, partilharam muito mais.
Enquanto o cavalo de ferro ofegante desembestava pelo alcatrão, uma vez mais, falava-se sobre a incerteza do dia seguinte, da eventualidade do regresso ao serviço do colega que substituem empurrando-os de volta para o abismo.
“Leva-se um dia de cada vez e depois… logo se vê”, foi a frase mais repetida para camuflar a ansiedade, com a mesma eficácia com que se tenta esconder um elefante atrás de um poste. Diz-se isso como se uma loucura repetida várias vezes pudesse passar a ser aceite como uma sanidade aceitável.
Mas, na ausência de melhor solução, esta era a melhor maneira encontrada para encarar tanta insegurança sobre aquilo que poderá chegar depois de cada amanhecer. Vivia-se um dia de cada vez para tornar a vida suportável. E, não obstante o elefante no meio da sala, inesperadamente ainda fomos tendo a capacidade de nos rirmos das nossas próprias desgraças.
Depois, ignorando o rugido do corcel enfurecido, no seu interior urdia-se um silêncio sepulcral de inquietude do qual me quis libertar tentando compreender, em vão, a razão daquela dor encoberta.
Pensei… não bastando o azedume de tantos pedantes que conjuram sobre a preguiça e o aranzel de privilégios dos professores, por vezes aos colegas contratados ainda é exigido que engulam em seco quando fustigados pelas palavras nocivas que saem da boca de alguns dos seus pares perguntando-lhes se são professores ou contratados. Na realidade, são personagens constantemente compelidas para fora da história da qual fazem parte, tratados à margem como meros figurantes ou personagens secundárias.
Absortos na preocupação de saber se um dia teremos direito a uma reforma condigna, não reparámos que no seu mundo povoado por pequenas esperanças, eles já não acalentam ilusões sobre a eventualidade de um dia a virem a receber. Resignados, acreditam que lhes darão simbolicamente uma miséria ao fim de tantos anos inacabados e horários incompletos em que trabalharam só para somar tempo de serviço, acabando frequentemente por ter de pagar para poder trabalhar. Nada mais representam para o Estado do que um chorudo negócio.
Longe vai o dia em que, ao receberem o primeiro salário, se sentiram orgulhosos e reconhecidos pelo seu trabalho. Depressa o sabor amargo da exploração a que estavam sujeitos os tomou de assalto.
Povoando quartos e enchendo as estradas deste país, vêm e vão das escolas e depressa são esquecidos. Rotulados de inexperientes, sem eira nem beira do Minho, pelas Beiras ao Alentejo, passando pelo sul e ilhas, acumulam mais experiências do que qualquer um de nós, mas são incompreendidos e desconsiderados.
Perante a nossa agitação pelo cansaço do trabalho do final de um ano que almejávamos ver chegar ao fim, o que dizer sobre a angústia que estão a viver os professores contratados que pressentem não ver chegar o final do ano devido à “devolução” às escolas dos professores que estavam de baixa?
Onde nós vemos o melhor momento do ano com a aproximação do merecido descanso, eles veem cair sobre as suas cabeças a ameaça do regresso do pesadelo sob a forma de perda de tempo de serviço dispensando-os para o subsídio de desemprego. Um esquema maquiavélico montado pela tutela que, sem qualquer preocupação com a qualidade do ensino, para ir poupando dinheiro expulsa para fora do sistema colegas que deram tudo de si pelo país ao longo do ano.
Sem aviso prévio, certo dia, esses colegas simplesmente desaparecem, comprovando o papel descartável de quem é reduzido a um mero utensílio.
E eu que, na minha supina ignorância, permiti-me julgar que vos conhecia e sabia da vossa vida, na verdade, da vossa vida não sabia nada, nem coisa nenhuma.
Contratados há dez, vinte ou mais anos, numa vida de espera por algo que poderá nunca chegar, vão vivendo e sobrevivendo com as imensas regalias que noticia essa aberração voraz denominada «comunicação social» alimentada pela inveja de uma imensa massa acrítica cobardemente escudada atrás do anonimato da palavra «povo». Colegas que perdem tempo e dinheiro, a oportunidade de acompanhar de perto o crescimento dos seus filhos e qualidade de vida, mereciam mais respeito.
A sociedade é ingrata para com o trabalho dos professores, mas injusta e desumana para os que, de entre nós, continuam a ser contratados e atirados para o esquecimento.
Casados com a estrada, com a distância e o sentimento de separação, os professores contratados aceitam esta singular forma de vida por amor ao ofício de ensinar. Há muito que malas e alcatrão já fazem parte da bagagem pedagógica que os desliga dos seus lares, para irem vivendo como trapezistas na corda bamba.
Mas, em todo o caso, não era só isso que adensava o ar na boca sufocante da besta metálica onde nos encarceráramos com o propósito de finalmente sermos devolvidos a casa. Havia mais qualquer coisa que me escapava. Não me perguntem o quê, que até àquele momento eu ainda não tinha tido o discernimento para perceber.
As repostas estavam algures penduradas atrás de nuvens que povoavam um desabitado céu cor de chumbo onde moravam sonhos inalcançáveis para os meus olhos.
Durante mais uma de infinitas viagens sem fim à vista assolada pelo cansaço que nos agredia, observei o semblante meditabundo da colega que me devolveu um sorriso compungido usado como uma máscara para encobrir um profundo desassossego que lhe esvaziava a alma.
No meio de silêncios que devoravam quilómetros, arremessou o olhar para lá da janela onde a paisagem de nuvens escurecidas passava por ela e, então, olhando-a de soslaio consegui ver claramente o que nunca antes conseguira ver. Vi no canto dos seus olhos um brilho de tanto que ela tinha para dizer. Durante um instante que se tornou numa eternidade, escutei a sua voz calada dizer tudo sem proferir uma única palavra. Li naquele rosto tudo o que nesse inesquecível momento havia para sentir, para compreender.
E em silêncio, olhando pela vidraça da janela, ela disse-o com o olhar atirado para o mundo dos pensamentos e eu, pela primeira vez, consegui escutar:
–Todos os anos fui obrigada a abandonar amigos que criei e estimei e que nunca irei esquecer.
Beijei e abracei gente por esse país fora; gente por quem me afeiçoei e que não mais voltei a ver criando mais desertos no meu peito.
Na lembrança trago um enorme lençol de histórias de gente que toquei e se tornaram parte de mim.
Atraiçoei todas as crianças que se apegaram a mim e para as quais não mais voltei.
Abandonei repetidamente os braços da família que amo e que generosamente me abafam a dor da saudade com abraços perdoando-me o vazio que lhes deixei.
Digam-me como hei de explicar a um filho que não compreende este constante abandono acusando-me de gostar mais dos outros meninos do que dele, porque, sinceramente, eu não sei como o fazer?
Digam-me como posso ignorar o aperto no peito quando regresso tão tarde e me levanto tão cedo que os meus filhos nem me veem?
Digam-me, nessa equação infernal que rege a minha vida, onde cabe o choro de filhos que fui obrigada a deixar ficar para trás sempre que fiz a mala e me desfiz do lar, me desfiz da família, me desfiz deles, me desfiz em mil bocados?
Digam-me quantas vezes uma pessoa se pode partir e voltar a colar?
Mas o rio corre e sempre correu, mesmo quando parecia não haver mais água para o alimentar. Um rio que nasce nestes olhos de saudade, de dor e de esperança tornou-me agricultora nas terras férteis que atravessei derramando lágrimas de bem-querer que fizeram germinar todas as pequenas flores que abracei e encheram o meu jardim.
Sem ser pastora, rodeei-me de rebanhos que me seguiram até ao cimo de montes de onde tudo se podia ver.
Tornei-me nómada num mundo de lugares que me desejavam e me rejeitavam num ápice prostituindo a pureza e a inocência das verdades nas quais eu ainda acreditava.
Do reflexo desta lágrima que escorre triste pela encosta deste monte, olham-me todas as criaturas do mundo que eu pude conhecer e que agora me vieram ver do já longo livro de memórias dos sítios por onde passei.
Na boca faltam-me as palavras para dizer tudo aquilo que sinto de tanto que haveria para dizer.
Não há no mundo dinheiro que pague a saudade que se instalou aqui;
não há no mundo dinheiro que apague a dor de tanta ausência que senti;
não há no mundo dinheiro que traga de volta tudo aquilo que eu perdi;
não há no mundo ideia de tudo aquilo que fiz, os sacrifícios que aceitei, as lágrimas que nos olhos dos que amo eu derramei, só para poder abraçar a profissão que escolhi;
não há no mundo interesse pela minha vida, porque ela não cabe no circo mediático em redor do qual se juntam todos os que não me querem ver;
não há no mundo ideia, porque eles não entendem, não sabem, nem imaginam que não há dinheiro no mundo que pague tudo isto que só eu sei.
Cristalizado a olhá-la, quase desejei que aquele instante de clareza nunca acabasse. Uma eternidade que se sentou a meu lado, permitindo-me observar o seu silêncio falar muito mais do a sua boca alguma vez pudesse proferir. O tempo congelou nesse momento em que me senti um inútil ao encontrar tantas lágrimas nos olhos como falta de palavras na boca. Apetecia-me dizer-lhe que agora eu compreendia toda essa dor. Movi os lábios, mas embargou-se-me a voz e fui incapaz de emitir um único som. Aquela colega, mulher, esposa, mãe, refugiara-se algures num lugar tão seu que eu não tive coragem de ir bater à sua porta para lhe dizer que agora eu já a conseguia ver.
Enquanto o olhar furtivo dela ficara lá fora perdido no último refúgio do mundo, repleto de memórias e sonhos escondidos num céu triste que se derramava sobre nós, eu tivera o raro privilégio de lhe conseguir ler as feições da alma. Pergunto-me como foi possível que durante tanto tempo eu estivesse cego ao ponto de deixar que aquela mulher fosse invisível aos meus olhos?
“Ser invisível” é o fado que o professor contratado tão bem conhece neste meio, não só pelo desinteresse em tentarmos descobrir o que o outro ser humano sente, mas também pela nossa incapacidade de vestirmos a sua pele.
Por fim, quando o mundo se evaporou no meio das trevas, tão derrotada pelo cansaço como nós, a besta fumegante finalmente parou vomitando-nos de volta aos nossos lares. Havia de desfilar um cortejo de dias até eu reconhecer a minha incapacidade de colocar em palavras todas aquelas emoções. Suponho que isso nunca venha a ser possível.
Só consigo dizer que era impossível terminar o ano sem manifestar a minha mais profunda admiração pelo trabalho que os meus colegas de boleias e todos os professores contratados “invisíveis” prestam, cuja dívida para com eles este país jamais conseguirá saldar… porque “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”.
Numa altura em que a importância dos professores e do serviço que prestam em situações, tantas vezes tão difíceis, se resume a uma simples equação de cifrões conotada com despesa, esta frase nunca fez tanto sentido. Só é pena haver tanta cegueira à nossa volta.
A minha vida profissional sempre na estrada tem sido difícil, mas o que dizer destas vidas?…
Um grande abraço a todos vós, caros colegas contratados, e os desejos das maiores felicidades para um futuro que desejo longe dos quartos e das estradas, mas perto dos que moram no vosso peito… que a gente vai-se vendo por aí.
Até sempre!"
Carlos Santos
terça-feira, 21 de maio de 2019
Partir alentejano ...com esperança por Duarte Coxo!
Vou-me embora, vou partir mas tenho esperança
De correr o mundo inteiro, quero ir
Quero ver e conhecer, rosa branca
E a vida do marinheiro sem dormir
E a vida do marinheiro branca flor
Que anda lutando no mar com talento
Adeus adeus minha mãe, meu amor
Eu hei-de ir hei-de voltar, com o tempo
Adeus adeus minha terra, vou partir
Mal de ti jamais direi, a ninguém
Dar ao mundo muitas voltas, quero ir
Mas não sei se voltarei, nota bem
quinta-feira, 11 de abril de 2019
Tu Mulher por Miguel Gameiro
Tu, que és forte e insegura
um abraço que perdura
feito de luz e de afeto
Tu, que és doce e apaixonada
por tanto e tantos nadas
queria ter-te sempre perto
Tu, que és o meu porto seguro
a luz que vem do escuro
minha fonte de prazer
Tu, que és mais que toda a gente
és simplesmente tu
tu, simplesmente mulher
Tu, que és calma e sensatez
que és a fúria e o silêncio
que és incerteza e razão
Tu, qual poema de canção
és a noite e és o dia
num bater de coração
Tu, que és o meu porto seguro
a luz que vem do escuro
minha fonte de prazer
Tu, que és mais que toda a gente
és simplesmente tu
tu, simplesmente mulher
Tu, que és a luz que vem do escuro
o corpo que seguro
quando quero adormecer
Tu, que és mais que toda a gente
és simplesmente tu
tu, simplesmente mulher
quarta-feira, 20 de março de 2019
Sonhos megalómanos em Teste de Compreensão Oral!
Teste elaborado a partir do programa da Antena 1, "Dias do Avesso", transmitido no dia 28 de fevereiro de 2019.
Obrigada ao colega Luís Miguel Malva Jesus Rêpas pelo olhar atento e pelos bons conselhos!
Obrigada ao colega Luís Miguel Malva Jesus Rêpas pelo olhar atento e pelos bons conselhos!
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domingo, 10 de março de 2019
Triste Sina por Cuca Roseta
Concerto surpreendente e aconchegante em Anadia com uma interpretação soberba deste fado de Amália Rodrigues
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Salamaleque - teste de compreensão oral
Como complemento ao estudo do conto "A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho" de Mário de Carvalho
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domingo, 20 de janeiro de 2019
A sombra... de Afonso Cruz
"A sombra diurna é um casamento de seres e objectos com uma estrela.Uma sombra na Terra demora oito minutos a ser feita. Imagino que cada fotão já parta apaixonado,e,à velocidade da luz, venha na nossa direcção apenas para nos pintar de negro contra uma parede branca. Desenhar-nos. Não é estranho que tenhamos uma estrela a desenhar-nos? E que o faça precisamente do oposto daquilo que é feita? Porque essas imagens não são de luz, são feitas da ausência dela."
in Princípio de Karenina, de Afonso Cruz
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Certeza de Miguel Torga
Porque hoje caiu a primeira geada!E porque vou começar com o "Cavaleiro da Dinamarca" no 7º ano...
Certeza
Sereno, o parque espera
Mostra os braços cortados,
E sonha a Primavera
Com seus olhos gelados.
É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente;
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e sementes.
Basta que um novo Sol
Desça do velho céu,
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Santo e senha de Miguel Torga
SANTO E SENHA
Deixem passar quem vai na sua estrada
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai
Uma estrela no chão.
in DIÁRIO I
Deixem passar quem vai na sua estrada
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai
Uma estrela no chão.
in DIÁRIO I
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Carolina Deslandes e a Nuvem Avô!
Tinhas as mãos enrugadas e cheias de histórias
A roupa lavada e vem-me à memória
Como me embalavas depois de jantar.
Tinhas o rosto sereno, calmo e sempre vivo
E o meu corpo pequeno, mas tão emotivo
Não te sabe lembrar sem chorar
Eras da minha alma, da minha casa
Eu era tua costela
Dormia na tua sala, na tua asa
Quente como a chama de uma vela.
E agora não te tenho, só te lembro
E gosto de te cantar
Guarda um cantinho da tua nuvem
Para um dia eu lá morar
Tinhas um corpo de lar
E um cheiro a infância
Os olhos de mar, e hoje à distância
Se fechar os olhos ainda lá estou
E deitada no teu colo
O mundo era meu,
Só me resta o consolo
De que aí no céu
Exista uma nuvem com nome de Avô.
Eras da minha alma, da minha casa
Eu era tua costela
Dormia na tua sala, na tua asa
Quente como a chama de uma vela.
E agora não te tenho, só te lembro
E gosto de te cantar
Guarda um cantinho da tua nuvem
Para um dia eu lá morar
Há um sítio lá ao pé do sol
Onde eu te vou encontrar
Há um sítio lá ao pé do sol
Onde eu te vou encontrar
Eras da minha alma, da minha casa
Eu era tua costela
Dormia na tua sala, na tua asa
Quente como a chama de uma vela.
E agora não te tenho, só te lembro
E gosto de te cantar
Guarda um cantinho da tua nuvem
Para um dia eu lá morar
E agora não te tenho, só te lembro
E gosto de te cantar
Guarda um cantinho da tua nuvem
Para um dia eu lá morar
terça-feira, 9 de outubro de 2018
A competição pelo Senhor Valéry de Gonçalo M. Tavares
A Competição
O senhor Valéry não gostava de competir. Sobre qualquer competição ele dizia que do 1º ao último lugar todas as classificações eram más. E interrogava-se:
- Ganhar aos outros para quê? Perder com os outros porquê? - Prefiro ser vice-último ou sub-último - dizia ele, com ironia.
E explicava:
- Só existe justiça numa competição se todos partirem de condições iguais. Mas tal não existe, já se sabe. E se todos fossem iguais como poderia ficar um à frente de outro? Numa competição as pessoas acabam sempre como começaram - concluía o senhor Valéry.
E o senhor Valéry dizia ainda:
- O que eu gostava era de ver uma corrida de 100 metros onde cada pista terminasse num ponto diferente. - Imaginem 4 pistas de 100 metros assim...(e ele desenhava)
- ... deste modo - continuava o senhor Valéry - ao terminar a competição, cada atleta perceberia melhor o que estava à sua espera no dia seguinte. Mesmo que ganhasse acabava a corrida sozinho, o que é uma pequena lição de vida.
E depois desta afirmação algo ambígua, o senhor Valéry prosseguiu o seu passeio diário, com o corpo um pouco curvado, o chapéu enterrado na cabeça, e sozinho, completamente sozinho, como sempre.
in, O Senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares
O senhor Valéry não gostava de competir. Sobre qualquer competição ele dizia que do 1º ao último lugar todas as classificações eram más. E interrogava-se:
- Ganhar aos outros para quê? Perder com os outros porquê? - Prefiro ser vice-último ou sub-último - dizia ele, com ironia.
E explicava:
- Só existe justiça numa competição se todos partirem de condições iguais. Mas tal não existe, já se sabe. E se todos fossem iguais como poderia ficar um à frente de outro? Numa competição as pessoas acabam sempre como começaram - concluía o senhor Valéry.
E o senhor Valéry dizia ainda:
- O que eu gostava era de ver uma corrida de 100 metros onde cada pista terminasse num ponto diferente. - Imaginem 4 pistas de 100 metros assim...(e ele desenhava)
- ... deste modo - continuava o senhor Valéry - ao terminar a competição, cada atleta perceberia melhor o que estava à sua espera no dia seguinte. Mesmo que ganhasse acabava a corrida sozinho, o que é uma pequena lição de vida.
E depois desta afirmação algo ambígua, o senhor Valéry prosseguiu o seu passeio diário, com o corpo um pouco curvado, o chapéu enterrado na cabeça, e sozinho, completamente sozinho, como sempre.
in, O Senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
O desacerto por Miguel Torga
DESACERTO
Ternura em movimento,
Vamos os dois - o sol e a sombra juntos,
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente;
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.
Apertamos as mãos enamoradas.
Uma quente, outra fria...
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com seus olhos perfumados.
Tu, de pura alegria;
Eu, de melancolia...
Um a cuidar, e o outro sem cuidados.
Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada,
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.
Almas amantes e desencontradas
Na breve conjunção
Que tiveram na vida.
Levo de ti um halo de pureza,
Deixo-te a inquietação duma lembrança...
E é inútil pedir mais à natureza,
Surda ao meu desespero e à tua confiança.
Diário X
terça-feira, 10 de julho de 2018
Quanto mais se sobe, mais as pessoas... desaparecem.
Talvez seja do momento, mas faz todo o sentido!
«(...) Quanto mais se sobe, mais as pessoas desaparecem. Os governos não sabem que as pessoas existem, de tão em cima que estão. Falam do povo, mas é uma entidade abstrata, tal como nós falamos de Deus. Ninguém, lá do alto da governação, sabe se o povo realmente existe, é uma questão de fé. Chega-se até a descrever as suas características e a temê-lo, mas nunca ninguém o viu, senão uns místicos que desceram ao nosso nível e que acabam descredibilizados e ridicularizados. O místico diz que o povo sofre e que é preciso mais justiça e que cada pessoa tem uma vida e não são uma Unidade, mas que são, isso sim, pessoas realmente separadas umas das outras, com existência própria. Ele, como um profeta do fim dos tempos, avisa os seus congéneres de que o povo pode ser perigoso e pode derrubar coisas muito altas. É preciso não esquecer, diz ele com o dedo esticado para baixo, que, por mais alta que seja uma árvore, o seu tronco mantém-se ao alcance de um machado. Mas ninguém dá ouvidos ao místico que viajou até à terra e a sua carreira política termina imediatamente e de forma ultrajante.»
In "O pintor debaixo do lava-loiças" de Afonso Cruz
Os desenhos de olhos também são do livro!
«(...) Quanto mais se sobe, mais as pessoas desaparecem. Os governos não sabem que as pessoas existem, de tão em cima que estão. Falam do povo, mas é uma entidade abstrata, tal como nós falamos de Deus. Ninguém, lá do alto da governação, sabe se o povo realmente existe, é uma questão de fé. Chega-se até a descrever as suas características e a temê-lo, mas nunca ninguém o viu, senão uns místicos que desceram ao nosso nível e que acabam descredibilizados e ridicularizados. O místico diz que o povo sofre e que é preciso mais justiça e que cada pessoa tem uma vida e não são uma Unidade, mas que são, isso sim, pessoas realmente separadas umas das outras, com existência própria. Ele, como um profeta do fim dos tempos, avisa os seus congéneres de que o povo pode ser perigoso e pode derrubar coisas muito altas. É preciso não esquecer, diz ele com o dedo esticado para baixo, que, por mais alta que seja uma árvore, o seu tronco mantém-se ao alcance de um machado. Mas ninguém dá ouvidos ao místico que viajou até à terra e a sua carreira política termina imediatamente e de forma ultrajante.»
In "O pintor debaixo do lava-loiças" de Afonso Cruz
Os desenhos de olhos também são do livro!
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Em epifania com... Afonso Cruz!
"Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções."
in "O pintor debaixo do lava-loiças" de Afonso Cruz
terça-feira, 26 de junho de 2018
Eu esperei... por Tiago Bettencourt!
Depois do concerto de ontem, em Anadia, ficou-me na alma!
Eu esperei
Mas o dia não se fez melhor
Mas o sujo não se quis limpar
Inventou mais flores em meu redor
Como se eu não fosse olhar!
Enfeitou as ruas para cobrir
Terra seca de não semear
Deram-me água turva de beber
Dizem cura e força e solução
Como se eu não fosse olhar!
Eu esperei
Mas o fumo não saiu da estrada
Arde o sonho em troca de nada
Dizem festa, mas é solidão
Como se eu não fosse olhar!
A mentira não se fez verdade
A justiça não se fez mulher
A revolta não se faz vontade
Braços novos sem educação
Sangue velho chora de saudade!
Eu esperei
Dizem luta mas não há destino
Dão-me luzes mas não é caminho
Dizem corre mas não é batalha
Como quem não quer mudar!
Esta corda não nos sai das mãos
Esta lama não nos sai do chão
Esta venda não deixa alcançar
Cantam "armas" mas não é amor
Mão no peito mas não é amar
Cavaleiro mas sem lealdade
Fato justo mas já sem moral
Braços sujos que se vão esconder
Braços fracos não são de lutar
Braços baixos não se querem ver
Como se eu não fosse olhar!
Eu esperei Pelo tempo transparente em nós
Pelo fruto puro de colher
Pela força feita de alegria
Mas o povo dorme na ilusão!
E a tristeza é forma de sinal
Liberdade pode ser prisão
Meu deus, livrai-nos do mal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
Eu esperei
Mas o dia não se fez melhor
Mas o sujo não se quis limpar
Inventou mais flores em meu redor
Como se eu não fosse olhar!
Enfeitou as ruas para cobrir
Terra seca de não semear
Deram-me água turva de beber
Dizem cura e força e solução
Como se eu não fosse olhar!
Eu esperei
Mas o fumo não saiu da estrada
Arde o sonho em troca de nada
Dizem festa, mas é solidão
Como se eu não fosse olhar!
A mentira não se fez verdade
A justiça não se fez mulher
A revolta não se faz vontade
Braços novos sem educação
Sangue velho chora de saudade!
Eu esperei
Dizem luta mas não há destino
Dão-me luzes mas não é caminho
Dizem corre mas não é batalha
Como quem não quer mudar!
Esta corda não nos sai das mãos
Esta lama não nos sai do chão
Esta venda não deixa alcançar
Cantam "armas" mas não é amor
Mão no peito mas não é amar
Cavaleiro mas sem lealdade
Fato justo mas já sem moral
Braços sujos que se vão esconder
Braços fracos não são de lutar
Braços baixos não se querem ver
Como se eu não fosse olhar!
Eu esperei Pelo tempo transparente em nós
Pelo fruto puro de colher
Pela força feita de alegria
Mas o povo dorme na ilusão!
E a tristeza é forma de sinal
Liberdade pode ser prisão
Meu deus, livrai-nos do mal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
E acorda Portugal
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Filtrar os sonhos!
Segue a correção do teste de compreensão oral aplicado aos meninos do 7º ano!
sexta-feira, 11 de maio de 2018
Ser poeta ... perdidamente!!! Florbela Espanca
Cantado magnificamente por Sara Tavares com os Ala dos Namorados!
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Teste de compreensão oral "Ser uma vedeta"
Como complemento ao estudo do Texto Dramático!
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